quinta-feira, 21 de março de 2013

Um samba em homenagem ao PIG, o maior partido de oposição do país



No link abaixo o samba-enredo da Tradição Família e Propriedade (TFP), 
baluarte da ala dos conservadores, fascistas, homofóbicos, racistas, 
viúvas da ditadura e Direita em geral. Pra lembrar o 'Língua de Trapa' 
e rir um pouco do bloco dos contentes. 






Samba-enredo da T.F.P

(Carlos Melo / Laert Sarrumor)

T.F.P pede passagem,
Pra mostrar sua bateria
E seu passado de coragem,
Defendendo a Monarquia
Salve Plínio Correa de Oliveira,

Precursor da linha-dura
Grande baluarte da ditadura
Legislador da Inquisição,
Implacável justiceiro

Homem de grande erudição,
Lia Mein Kampf no banheiro
No tribunal de Nuremberg,
Defendeu o Mussolini
Sob os auspícios do Lindenberg

E hoje ele se preocupa com a infiltração comunista
No clero progressista (e o Lefebvre)

Lefebvre, fiel companheiro inseparável amigo,
Irrepreensível mentor
Exerce completo fascínio e vai incutindo no Plinio
O gênio conservador

Digno de um poema do Ezra Pound,
Quer que o Brasil se transforme
Num imenso playground

No carnaval a escola comemora
O nascimento de Nossa Senhora

E a defesa da tradição, cantando esse refrão:

Anauê, Anauê, Anauá, TFP acabou de chegar (repete)

E hoje sou fascista na avenida,
Minha escola é a mais querida
Dos reaça nacional (repete)

Plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim,
Era assim que a vovó o seu Plinio chamava

Nota: Do saudoso grupo Língua de Trapo


sexta-feira, 8 de março de 2013

O Papa que trouxe de volta a Inquisição não foi corajoso ao renunciar


  
Os cardeais são na maioria conservadores  
Por Lais Amaral

Outro dia ouvi de uma pessoa amiga, a respeito da rumorosa renúncia do Papa, a expressão: “foi um gesto de muita coragem !”. Uma frase que por sinal já ouvira da boca de muitos analistas da nossa imprensa. Não que meu amigo estivesse apenas repetindo um jargão empacotado pela Mídia.

Como costuma acontecer, estava sendo levado a aderir, subliminarmente, ao pensamento único. Até porque exprimir opiniões mornas sobre celebridades do porte de um Papa costuma dar mesmo em lugar comum. Afinal, o homem tem status de representante de Deus na Terra.

Mas eu, como não sou católico, posso olhar desapaixonado a questão e relativizar essa coragem. Os oito anos de Bento 16 no Vaticano foram marcados por denúncias de abusos sexuais não apurados (ou não punidos), escândalos de vários matizes envolvendo o Banco do Vaticano e a briga pelo poder interno.

Ele (Bento) tinha nas mãos a faca e o queijo, ou se preferirem, o cálice e o cibório, e resolveu deixar a solução do imbróglio, incluindo um suposto e cabeludo dossiê sobre as entranhas do Vaticano, para seu sucessor. Um presentão de grego. Não vejo isso como um gesto de coragem.

O que me parece é que a Igreja Católica vive uma crise apocalíptica, de aparente irreversibilidade. Especula-se que um Papa negro ou originário de um país americano, como o Brasil - a maior população católica do mundo, poderia estancar essa hemorragia.

Mas uma reforma aguda não deverá acorrer. Tirando o simbolismo inútil, não vai importar a cor da pele ou a nacionalidade do novo Papa, já que a maioria dos 115 cardeais que participarão do Conclave foi escolhida pelo próprio Joseph Ratzinger. São da sua linha ultra-conservadora.

Bento 16 é o mesmo Ratzinger, que na análise do teólogo norte-americano Mattheu Fox, foi um autêntico inquisidor durante a gestão de Wojtila (João Paulo II), esmagando os opositores da sua corrente de pensamento. Foram expulsos mais de cem teólogos, entre os quais, o frei Leonardo Boff e o próprio  Mattheu Fox.

Muitos dos adeptos da Teologia da Libertação, a chamada opção preferencial pelos pobres, uma espécie de volta às origens, de reaproximação com o que teria dito Jesus, e que prosperou a partir do Concílio Vaticano 2º, foram substituídos por membros do Opus Dei, um setor ultra-conservador da Igreja.

Enquanto a fumaça não vem, especula-se, o que é um exercício normal. Mas deveríamos ser mais céticos diante dos clichês que insistem, dissimuladamente, em se passarem como nossas conclusões genuínas. 

Segue abaixo a entrevista concedida por Mattheu Fox aos jornalistas Amy Googman e Juan Gonzalez no Democracy Now.

O Retorno da Inquisição  
e a difícil renovação  
da Igreja Católica


A entrevista foi traduzida e publicada no Blog Outras Palavras. Nela o teólogo Mattheu Fox revela como os papas Ratzinger e Wojtyla reintroduziram a Inquisição, perseguiram divergentes e tornaram quase impossível renovação da Igreja. (Lais Amaral)

Tradução:Gabriela Leite

Desde que o Papa Bento XVI formalmente se retirou, na quinta-feira, dia 28 de fevereiro, as especulações passaram a ser sobre quem vai substituí-lo.
Na quarta, Bento deu um adeus emotivo em sua última audiência geral, dizendo que compreendia a gravidade de sua decisão de tornar-se o primeiro pontífice a renunciar, em um período de cerca de 600 anos.
Com 85 anos de idade, apontou sua saúde frágil como razão para a partida. Dirigindo-se a cerca de 150 mil fiéis na Praça de São Pedro, disse que está renunciando pelo bem da Igreja.
O mandato do papa Bento foi marcado por muitos escândalos, talvez mais notadamente por sua postura diante dos abusos sexuais. Há alegações de que ignorou ao menos um caso assim, quando era cardeal.
Documentos mostram que, em 1985, o estão cardeal Ratzinger adiou esforços para afastar um padre condenado por abusar de crianças. Enquanto isso, Bento supervisionou, no ano passado, uma sentença do Vaticano segundo a qual o maior e mais influente grupo de freiras católicas norte-americanas sofria “sérios problemas doutrinários”, por ter questionado os ensinamentos da Igreja sobre pontos como homossexualidade e a proibição das mulheres exercerem o sacerdócio.
Mais recentemente, novas fontes italianas revelam que três cardeais foram investigados por terem vazado documentos que mostram a corrupção sem limites nos postos do Vaticano.
Para saber mais, fomos a San Francisco, onde entrevistamos o teólogo MatthewFox. Ele é autor de mais de vinte livros, o mais recente dos quais é “The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has Imperiled the Church and How It Can Be Saved” (tradução livre: “A guerra do Papa: Por que a cruzada secreta de Ratzinger ameaçou a Igreja e como ela pode ser salva”).

Fox é um ex-padre católico, que foi primeiro impedido de ensinar a Teologia da Libertação e Espiritualidade da Criação pelo então cardeal Ratzinger. Mais tarde, foi expulso pela Ordem Dominicana, à qual pertenceu por 34 anos. Hoje é padre na Igreja Episcopal. Eis sua entrevista:

Amy Goodman: Bem vindo ao Democracy Now! Você pode começar respondendo sobre a renúncia do Papa e seu significado?
Obrigado. Eu realmente aprecio o jornalismo de vocês. Ele significa muito, para muitos de nós.
Penso que eu vou acreditar na palavra do Papa, quando ele diz que está cansado. Eu estaria cansado também, se tivesse deixado atrás de meu mandato tanta devastação, como ele fez, primeiro como inquisidor-geral durante o papado anterior.
Bento trouxe de volta a Inquisição. É verdade que fui um dos teólogos expulsos por ele, mas relaciono outros 104 em meu livro, e a lista continua crescendo. É assim que a História vai lembrar deste homem: como quem trouxe a Inquisição de volta, o que é o completo oposto do espírito e dos ensinamentos do Segundo Conselho do Vaticano. Portanto, acredito realmente que o Papa está deixando seu posto porque não o suporta mais.
O Vaticano tornou-se um ninho de serpentes. Como teólogo, vejo o trabalho do Espírito Santo em tudo isso. A Igreja Católica como a conhecemos, a estrutura do Vaticano, está obsoleta. Estamos nos movendo para além dela.
O que está ocorrendo é doentio e me refiro, por exemplo, à proteção dos padres pedófilos. Você pode ver este fenômeno em muitos lugares: com o Cardeal Mahony em Los Angeles; o cardeal escocês que acaba de renunciar; o Cardeal Law, que foi elevado após ter saído de Boston, promovido para dirigir uma basílica do século IV, em Roma; e o próprio Papa, segundo informações recentes.
Estamos tomando conhecimento das coisas horríveis que ocorreram em uma escola para surdos em Milwaukee, onde mais de 200 garotos, garotos surdos, foram abusados por um padre, e Ratzinger sabia disso.
O Padre Maciel, que era tão próximo do último Papa que o levou para passeios de avião, abusou de vinte seminaristas; tinha duas esposas e abusou de quatro de seus próprios filhos. Ratzinger soube sobre esse caso por dez anos. Os documentos estavam em sua mesa, e ele não fez nada até 2005.
A história e a bajulação dos papas, que chamo de ‘papolatria’, não vão encobrir os fatos. Foram os 42 anos mais sórdidos do catolicismo, desde o Borgias. Acho que é algo realmente relacionado ao fim dessa Igreja, como a conhecemos.
Acredito que o protestantismo também necessita de um reinício. Acho que o cristianismo pode voltar mais atrás, e se aproximar dos ensinamentos de Jesus, um revolucionário do amor e da justiça.
É disso que se trata. E é por isso que tem havido uma resistência tão feroz, na ala direita. A própria CIA esteve envolvida, especialmente com o Papa João Paulo II, no esmagamento da Teologia da Libertação em toda a América do Sul, substituindo líderes heróicos, inclusive bispos e cardeais, por integrantes da Opus Dei, uma organização fascista.
Tudo reduziu-se a uma questão de obediência: não se trata de ideias ou teologia. Eles não produziram um teólogo em quarenta anos. Produziram advogados canônicos e pessoas que se infiltram onde o poder está: na mídia, na Suprema Corte, no FBI, na CIA e nas finanças, especialmente na Europa.
Juan González: Em alguns de seus escritos, você sustenta que, no fundo, os dois últimos papas — Bento XVI e João Paulo II – lideram um cisma e que, na realidade, agiram para burlar as decisões do Concílio Vaticano II. Você poderia detalhar este movimento histórico?
O Papa João XXIII convocou o concílio no começo dos anos 1960. O encontro reuniu todos os bispos do mundo e todos os teólogos, muitos dos quais haviam vivido sob fogo no papado anterior, de Pio XII. Foi certamente um movimento de reforma.
Inspirou os mais pobres, especialmente na América do Sul. Depois deste concílio, o movimento da Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres decolaram, criaram comunidades de base. Eram um novo jeito de fazer a Igreja, onde todos tinham voz, não apenas as pessoas no altar.
Esta aproximação não-hierárquica ao cristianismo e ao culto, muito mais horizontal e circular, foi uma grande ameaça a certas pessoas em Roma — ameaçou ainda mais à CIA.
Dois meses depois de elito, o presidente Ronald Reagan convocou uma reunião de seu Coselho Nacional de Segurança em Santa Fé, Novo México, para discutir um ponto específico: como destruir a Teologia da Libertação na América Latina.
Concluíram que não poderiam destruir a Igreja, mas conseguiriam dividi-la. Foram ao Papa. Deram imensas somas de dinheiro ao sindicato Solidariedade, na Polônia, ao qual ele estava ligado. E em troca, conseguiram permissão ou — se você prefere assim — o compromisso do papado em destruir a Teologia da Libertação.
Isso está muito documentado. Por exemplo, por Carl Bernstein, num artigo de capa da revista Time, onde ele cria algo como uma hagiografia de Reagan e do Papa juntos.
Bernstein foi muito ingênuo sobre o que realmente estava acontecendo na própria Igreja. Parte importante do Concílio Vaticano II era declarar a liberdade de consciência, considerá-la um direito de todos os cristãos. Tudo isso foi destruído pelo papa João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger.
As reformas do Concílio Vaticano II estavam se concretizando. Falo de um cisma porque, na tradição católica, um Concílio é superior a um Papa. Mas nos últimos 42 anos, os dois últimos papados foram desfazendo todos os valores que o Vaticano II sustentou.

É isso que as freiras estão sofrendo agora. Assim como o Vaticano atacou 105 teólogos, agora acusa as freiras de, digamos, não participar da Inquisição. E Deus abençoe essas freiras, as NunsontheBus.

Muitos de nós as conhecemos porque elas têm estado nas linhas de frente, sustentando os valores do Vaticano II, especialmente os de justiça e paz, e trabalhando com os marginalizados.

Amy Goodman: Matthew Fox, por que você foi expulso da Igreja Católica? Você diz que é por causa da Teologia da Libertação. Explique.
Bem, primeiro eu fui silenciado por 14 anos, por Ratzinger. Em seguida, tive permissão para falar de novo e então, três anos depois, fui expulso. Mas ele construiu uma lista de reclamações. Primeira: eu seria um teólogo feminista. Não imaginava que este fato pudesse constituir uma heresia…
Número dois, eu chamava Deus de “Mãe”. Bem, provei que todos os místicos medievais chamavam Deus assim; e que a Bíblia também o faz, apesar de forma menos frequente.
Número três, eu prefiro a expressão “bênção original” a “pecado original”. Escrevi um livro chamado Original Blessing (“Bênção Original” em inglês), no qual provo que nem Jesus, nem judeu algum, jamais ouviu falar de “pecado original”.
Como você pode construir uma igreja, em nome de Jesus, a partir de um conceito que é do século IV d.C.
Sabe o que mais aconteceu no século IV, além da ideia do pecado original? Foi a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se você passa a comandar um império, o pecado original é um ótimo dogma a difundir. Faz com que todos fiquem confusos sobre por que estão aqui. Nessa condição, é muito mais fácil colocá-los sob comando.
Acusaram-me por não condenar homossexuais, o que é claro que não faço. Obviamente Deus quer homossexuais, ou não haveria entre 8% e 10 % da população de todo o planeta com essa graça especial.
Disseram que trabalho muito perto dos índios norte-americanos. Bem, realmente trabalho com eles. Aprendi muito com os professores índios e seus rituais, tais como saunas, danças do sol, busca de visões. Não sei se isso é heresia também — eu não sei o que significa “trabalhar perto demais”.
Essas eram algumas das objeções. E realmente, nenhuma delas se sustentava. São testes de Rorschach sobre o que apavora o Vaticano. E acima de tudo, é claro, sobre mulheres e sexo. Essa é a agenda.

Em qualquer situação onde há fundamentalismo e fascismo, existe controle. É por isso que o Vaticano, o Taliban e o pastor Pat Robertson têm algo em comum: estão todos apavorados com a possibilidade de trazer a divindade feminina de volta, e com isso, é claro, os direitos iguais para as mulheres.

Juan González: Além da pedofilia, que tem sacudido o Vaticano e toda a Igreja, há também os escândalos de corrupção no próprio Vaticano. Fala-se da denúncia produzida por um grupo de cardeais, que investigaram parte da corrupção mas não vão divulgar nada até o próximo Papa ser nomeado. Você sabe quanto qualquer desses temas tem a ver com a renúncia de Bento XVI?
Tenho certeza que tiveram. Eu fui informado de que ele recebeu a denúncia, examinou-a e, seis horas depois, anunciou que estava renunciando. Pôs-se a salvo e encarregou o próximo papa de lidar com o tema. Penso ser muito claro que há uma conexão. Há muito mais nos bastidores do que a imprensa já anunciou, posso assegurar.
Quando Ratzinger fez-se papa, fui a Wittenberg e preguei as 95 Teses [de Martinho Lutero] na porta. Um ano e meio atrás, estava em Roma, e as traduzi para o latim — quer dizer, italiano, e entreguei-as para a basílica do cardeal Law numa manhã de domingo.

Foi muito interessante. Um homem de 40 anos de idade veio a mim, um romano. Ele me disse, muito simplesmente: “Eu costumava me dizer um católico. Agora, só me chamo de cristão”. Foi um golpe para mim. Logo embaixo do nariz do papa, italianos, também, estão começando a compreender a verdade, estamos em um ótimo momento histórico.

Uma instituição ocidental de 1800 anos está derretendo diante dos nossos olhos. É doloroso e feio. Por outro lado, é também um momento de avanço e para apertar o botão de reiniciar no cristianismo, retornando à mensagem realmente poderosa de Jesus e seus seguidores através dos séculos: os místicos e os profetas.

Susan Sontag define “fascismo” como violência institucionalizada. Os católicos têm passado por violência institucionalizada há 42 anos. Pergunte a qualquer um desses teólogos que foram afastados de seu trabalho. Alguns morreram de ataque cardíaco.
Outros, na pobreza das ruas, porque não conseguiram arrumar emprego. Mas, é claro, fale com os jovens que foram abusados por padres e acobertados por Ratzinger, que “protegeu” a instituição às custas de cada uma dessas crianças.
Juan González: Vamos às especulações sobre quem vai ser o sucessor do Papa Bento XVI, Fala-se muito sobre a possível escolha, pela primeira vez, de um papa do hemisfério sul. Você ve alguma possibilidade de mudança real e substantiva na política da Igreja, seja quem for seu sucessor?
É triste dizer isso, mas eu não acredito, porque todos os que vão votar foram nomeados com aprovação do Ratzinger. Pensam como ele. O emburrecimento da igreja veio com toda essa crise pedófila. Quando você não tem líderes inteligentes e com consciência por 42 anos, mas apenas gente que diz sim, não é possível responder de modo inteligente à crise que emerge quando se acha um pedófilo em seu meio.
Há um arcebispo norte-americano — não vou nomeá-lo – que, vinte anos atrás, chorou na presença de um amigo meu e lhe disse: “Não há um único bispo nomeado nos últimos vinte anos que eu consiga respeitar”. Bem, agora nós podemos dizer 42 anos.
Por isso, francamente, poucos nomes me vêm à cabeça. Existe este na África, que por azar é um completo homofóbico, e está endossando todas as leis recentes de violência homofóbica na África. É o chefe da Comissão de Justiça e Paz no Vaticano.
Seria de esperara que não chegasse tão longe. Existe o cardeal austríaco, que é dominicano e mostrou um pouquinho de independência uma ou duas vezes. Há esse O’Malley, de Boston, que é franciscano, e portanto não quer ser Papa.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Renúncia do Papa. A culpa é do mordomo ? Ou o caso não é um mero romance policial


  • Andrew Medichini/AP
    Em foto tirada no dia 23 de maio, o mordomo Paolo Gabriele (na frente) acompanha Bento 16 no Papa Móvel, chegando à Praça São Pedro, no Vaticano. Gabriele é acusado de vazar para a imprensa documentos secretos do Vaticano
    Em foto tirada no dia 23 de maio, o mordomo Paolo Gabriele (na frente) acompanha Bento 16 no Papa Móvel, chegando à Praça São Pedro, no Vaticano. Gabriele é acusado de vazar para a imprensa documentos secretos do Vaticano

Nesta matéria publicada em setembro do ano passado em El País, o jornalista Pablo Ordaz expõe fatos que certamente contribuíram para a decisão de Bento 16 renunciar ao papado no dia 28 de fevereiro próximo. (Lais Amaral)   

El País

Pablo Ordaz
Em Roma (Itália)

Há seis anos, todos os dias, antes do amanhecer e depois do anoitecer, Paolo Gabriele, 46, casado e pai de três filhos, percorria a pé a distância entre sua residência e o apartamento de Bento 16. 
Na ida e na volta, o mordomo do papa passava junto a um caixa automático muito peculiar. 
O fundo da tela reproduz "A Criação de Adão", o afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina, e entre as línguas que o convidam a introduzir o cartão e sacar euros está o latim: "Inserito scidulam quaeso ut faciundam cognoscas rationem" (que pode ser traduzido como: "Coloque seu cartão para realizar suas operações").
Há exatamente quatro meses Paolo Gabriele deixou de passar junto do caixa do Banco do Vaticano. Em 23 de maio, a polícia o deteve sob a acusação de roubar e vazar para a imprensa a correspondência particular de Joseph Ratzinger. Gabriele, também conhecido como Paoletto, afirmou que sua única intenção foi ajudar a Igreja e o papa, revelando as intrigas palacianas. 
O julgamento, que começa no próximo sábado (29), na Cidade do Vaticano, deverá esclarecer se, como no caixa, a religião, a arte e o latim só serviam de envoltório para um motivo muito mais terreno.
A primeira parte da história é bem conhecida. Há um ano, um grande número de documentos confeccionados para serem lidos exclusivamente por Bento 16 começou a vazar na mídia. 
O primeiro foi uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò advertindo o papa sobre diversos casos de corrupção dentro do Vaticano. Depois se conheceu outro relato, elaborado pelo cardeal colombiano Darío Castrillón, no qual se falava de uma estranha conjuração para matar Ratzinger - "o papa morrerá em 12 meses" - e das más relações entre o sucessor de Pedro e seu secretário de Estado, monsenhor Tarcisio Bertone.
Um espião, não se sabe com que interesse nem a que preço, continuou fornecendo documentos cujo denominador comum era a luta de poder acirrada no seio da Cúria. 
Depois de uma temporada encerrado em silêncio, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, acabou admitindo que a Igreja estava sofrendo seu "VaticanLeaks" particular e o jornal "L'Osservatore Romano" publicou um editorial em que retratava a situação de um papa idoso, doente e só: "um pastor rodeado de lobos". 
A secretaria de Estado do Vaticano reagiu finalmente encarregando o cardeal espanhol Julián Herranz de procurar o suposto culpado, e, no final de maio, surgiu a surpresa: o traidor, o espião, o corvo, era o fiel Paoletto - o mordomo do papa. 
O que o despertava às 6h30, o ajudava a vestir-se, a preparar a missa, lhe servia o desjejum e o almoço, o que --por volta das 9 da noite-- lhe preparava uma infusão e o ajudava a despir-se e a ir para a cama...
A segunda parte da história já não é tão conhecida. Paolo Gabriele passou os dois primeiros meses de cativeiro em um calabouço e de 21 de julho para cá esperou o julgamento em prisão domiciliar. 
Também que, junto com uma multidão de documentos, os agentes da polícia encontraram em sua residência no Vaticano uma pepita de ouro, uma edição ilustrada da "Eneida" de Annibal Caro, de 1581, e um cheque sem cobrar de 100 mil euros que José Luiz Mendoza, presidente da Universidade Católica San Antonio de Murcia (UCAM), havia enviado ao papa. 
Soube-se também que Joseph Ratzinger está com pena e que Paolo Gabriele lhe pediu perdão. Inclusive que, junto dele no banco dos réus se sentará Claudio Sciarpelletti, um técnico em informática que, ao que parece, o encobriu.
O que não se sabe é o fundamental. Por que fez isso realmente? Foi uma arma contra o papa nas mãos de outros? De quem? Atuou sozinho ou o Vaticano ainda é um ninho de corvos? Só foi movido por um estranho desejo de limpar a Igreja de intrigas ou, pelo contrário, foi o vil metal que o levou a trair o papa? E, sobretudo, que relação teve sua detenção com a substituição fulminante de Ettore Gotti Tedeschi à frente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano?
Porque Paolo Gabriele e Gotti Tedeschi, o mordomo e o banqueiro, ambos muito próximos de Joseph Ratzinger, caíram ao mesmo tempo. Sobre o primeiro, o Vaticano soltou a polícia. 
Sobre o segundo, o descrédito. Criticou-se ferozmente sua gestão e inclusive se pôs em dúvida sua capacidade psicológica, a ponto de que Tedeschi, 67, também presidente da filial italiana do Banco Santander e velho amigo do papa, esteve prestes a contar o que tinha visto nos abismos do dinheiro da Igreja. "Prefiro não falar", concluiu, "se o fizesse só diria palavras feias. Debato-me entre a ânsia de explicar a verdade e não querer perturbar o santo padre."
Mas sim, falou. Duas semanas depois de sua demissão, a polícia apareceu de surpresa em sua casa em Piacenza e em seus escritórios em Milão. Um agente da polícia lhe informou que sua presença ali não obedecia a nenhum assunto relacionado com o Banco do Vaticano, mas sim com uma investigação antiga sobre comissões ilegais na venda de helicópteros para a Índia. 
O banqueiro reagiu com alívio: "Uma revista? Pensei que vinham me dar um tiro". O curioso é que os agentes, que teoricamente iam por outro assunto, acabaram levando documentação sobre supostas operações de lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano. 
A mídia italiana publicou que, entre as anotações apreendidas, havia detalhes muito precisos sobre operações ilícitas realizadas por prelados, homens de negócios mais ou menos sujos - que na Itália são chamados de "faccendieri" -, políticos de alto escalão e até chefes da máfia. O escândalo estava prestes a ultrapassar todos os limites quando ocorreu um fato muito significativo.
A Igreja mandou calar. Em uma sexta-feira à tarde, em uma hora totalmente incomum, o Vaticano emitiu um duro comunicado no qual advertia policiais, jornalistas, promotores, juízes e políticos do governo de que o material apreendido na casa de Tedeschi era propriedade da Santa Sé e que, se continuasse havendo vazamentos da investigação --um esporte nacional na Itália--, processaria quem fosse necessário. 
Os vazamentos pararam e desde então, no início de julho, o caso foi perdendo força, talvez ajudado pelo verão --o papa passa três meses descansando em sua residência de Castel Gandolfo e a Cúria tenta imitá-lo-- e o controle férreo da informação.
No próximo sábado, às 9h30, Paolo Gabriele se sentará no banco dos réus para enfrentar a acusação de "roubo agravado". O presidente do tribunal será Giuseppe Dalla Torre, acompanhado de Paolo Papanti Pelletier e Venerando Marano. 
A acusação será dirigida pelo promotor de justiça do Vaticano, Nicola Picardi, e a defesa do mordomo estará a cargo da advogada Cristiana Arru, depois que o outro advogado --Carlo Fusco, amigo de infância de Paoletto-- decidiu retirar-se por causa de "divergências" (não deu mais explicações) no processo.
Segundo o juiz do Vaticano Paolo Papanti, o mordomo poderá ser condenado a no máximo oito anos de prisão, em função do Código Penal vigente no Vaticano desde 1889. No decorrer do julgamento, o papa pode ainda optar por conceder a Gabriele a graça do indulto. Mas ele não poderá voltar a trabalhar no Vaticano. 
O regulamento geral da Cúria Romana --aprovado em 1999 por João Paulo 2º-- prevê a "demissão de ofício" para quem comete atos graves de indisciplina e insubordinação. Não é necessário ser um lince para intuir que a Igreja quer encerrar o assunto o quanto antes. Só oito jornalistas --escolhidos pela sala de imprensa do Vaticano-- poderão entrar no julgamento, mas sem material de gravação.
Se Gabriele aceitar as acusações e a condenação sem abrir a boca, sem contar o como e o porquê dos vazamentos, o Vaticano talvez consiga evitar um novo escândalo midiático, mas a verdade voltará a ficar oculta. A mancha da suspeita --a que há décadas envolve o Banco do Vaticano-- não se lava com caixas modernas enfeitadas de arte e de latim: "Inserito scidulam...".
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Papa Bento 16 visita Líbano à sombra da guerra na Síria21 fotos

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14.set.2012 - Papa Bento 16 acena para fiéis ao chegar ao Aeroporto Roma Ciampino nesta sexta-feira (14). Ele embarca para o Líbano para uma viagem de três dias. O Papa visita o Oriente Médio à sombra da guerra na Síria Leia mais Vincenzo Pinto/AFP Photo


Gabriele enfrenta prisões lotadas

A Igreja não tem prisões além das do pecado. Se finalmente recaísse sobre Paolo Gabriele uma pena de prisão, teria que cumpri-la em uma prisão italiana. E isso, nas palavras de Bento 16, representaria uma dupla condenação. 
No último Natal, o papa fez uma visita pastoral ao presídio romano de Rebibbia, e o que viu ali lhe causou tal espanto que, diante da ministra italiana da Justiça, Paola Severino, declarou: "A superlotação e a deterioração das prisões tornam mais amarga a prisão, representam uma dupla pena".
As condições desde então não melhoraram, de maneira que não parece previsível que Paoletto, apesar de sua culpa, possa terminar recluso no inferno de uma prisão. Outra opção seria o confinamento em um convento, do modo que a justiça italiana - que nunca deixa de surpreender - acaba de adotar com Luigi Lusi, senador do Partido Democrático (PD, de centro-esquerda) processado sob a acusação de ter roubado 25 milhões de euros quando era tesoureiro de La Margherita.
Enquanto isso, o papa busca um substituto. Sob o título "Vaticano procura mordomo", o jornal "La Stampa" informou há alguns dias que Joseph Ratzinger levou para Castel Gandolfo Angelo Gugel, um mordomo já veterano, de absoluta confiança, enquanto decide entre Sandro Mariotti, aliás Sandrone, ou Andrea Monzo, filho de um porteiro da Congregação para a Doutrina da Fé. Como se vê, não é um assunto menor.
O mordomo é uma das pessoas mais próximas do papa. Faz parte do que intramuros se costuma chamar de "família pontifícia", os habitantes do Apartamento. Trata-se do padre Georg Gänswein, secretário pessoal do papa, do padre maltês Alfred Xuereb, quatro laicas consagradas - Carmela, Loredana, Cristina e Rosella - e uma freira, irmã Birgit Wansing, que o ajuda nos trabalhos de estudo e escrita. Trabalhos que certamente trazem ao papa bons benefícios.
Acaba-se de saber que Joseph Ratzinger já terminou seu terceiro volume sobre a vida de Jesus, dedicado aos textos de Mateus e Lucas sobre as circunstâncias do nascimento em Nazaré, e que decidiu que será uma editora laica, a Rizzoli, a encarregada de sua publicação. O contrato não é mau: 2 milhões de euros.

As chaves do escândalo na Santa Sé


- Fevereiro de 2012. O vazamento para vários meios de comunicação italianos de documentos secretos (entre eles algumas cartas relacionadas a um suposto complô para matar o papa Bento 16) conturbam o Vaticano. 
Os documentos vazados deixam as lutas de poder dentro da Cúria descobertas. O porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, admite que a Igreja está sofrendo seu próprio "VaticanLeaks". O jornal oficial do Vaticano, "L'Osservatore Romano", descreve o papa Bento 16 como "um pastor rodeado de lobos".
- 23 de maio. Cai o "espião do Vaticano". As investigações conduzem até Paolo Gabriele, 46, ajudante de câmara do papa e uma das pessoas de sua máxima confiança. Gabriele, um homem devoto, casado e pai de três filhos, presta declaração diante de Nicola Picardi, promotor geral do Vaticano. A polícia encontra em sua casa "caixas repletas de documentos".
A polícia vaticana encontra fotocópias de documentos e objetos do papa, uma edição do século 16 da "Eneida" e inclusive um cheque no valor de 100 mil euros que a Universidade Católica de San Antonio (Murcia, Espanha) enviou para o papa.
- 27 de maio. Paolo Gabriele nomeia dois advogados. A polícia vaticana investiga suas contas bancárias, procura cúmplices e tenta averiguar o motivo dos vazamentos. A hipótese dominante é que se trata de desacreditar o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, amigo e braço-direito do papa, dentro da luta pela sucessão. Nos documentos vazados, Bertone aparece como um homem ambicioso e todo-poderoso, cada vez mais distante de Bento 16.
- 3 de junho. O jornal "La Repubblica" publica três outras cartas. O remetente anônimo acusa Bertone e Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento 16, de serem os "verdadeiros responsáveis" pela fuga da informação, e diz que Gabriele é um bode-expiatório. 
O papa lamenta o tratamento que o caso recebe na mídia, que "amplifica deduções gratuitas". Alguns dias depois, o cardeal Bertone acusa os jornalistas pelo clima de "mesquinharia, mentiras e calúnias" e acusa a mídia de "imitar Dan Brown".
- 30 de junho. O Vaticano contrata o jornalista americano Greg Burke para melhorar sua imagem depois dos escândalos provocados pelo vazamento de documentos.
- 21 de julho. O juiz de instrução do caso, Piero Bonet, concede prisão domiciliar a Gabriele, detido desde 24 de maio, à espera do julgamento.
- 24 de julho. Gabriele divulga uma carta dirigida a Bento 16 pedindo perdão e dizendo-lhe que está muito arrependido.
- 13 de agosto. O juiz ordena o processamento de Gabriele pelo roubo com agravantes de documentos secretos da Santa Sé. O magistrado pede que também seja julgado Claudio Sciarpelletti, um programador de informática de 48 anos empregado na Secretaria de Estado da Santa Sé. O informático supostamente teria ajudado Gabriele no tráfico de documentos.
- 30 de agosto. O advogado de Gabriele, Carlo Fusco, renuncia, alegando "divergências sobre a estratégia defensiva" diante do julgamento.
- 17 de setembro. O juiz estabelece para 29 de setembro o início do julgamento contra Gabriele e Sciarpelletti pelo roubo e divulgação dos documentos secretos da Santa Sé. Caso sejam considerados culpados, a pena varia de um a seis anos de prisão. 
Gabriele foi submetido a duas perícias psiquiátricas, uma por parte do tribunal Vaticano e outra pedida por seu advogado, e ambas demonstraram que é "uma pessoa correta e normal" que cometeu um "fato extremamente grave". A imprensa italiana garante que cerca de 20 pessoas estão sendo investigadas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O embate entre Carlos Dornelles e a Globo


O jornalista Carlos Donrnelles


Por: Paulo Nogueira
A sociedade tem que saber mais sobre as práticas fiscais de corporações como a Globo.
Carlos Dornelles é um verbete grande no espaço de memórias do site da Globo. Ali ficamos sabendo que Dornelles, gaúcho de Cachoeira do Sul nascido em 1954, fez muitas coisas na Globo.

Vou transcrever um trecho para conhecermos melhor Dornelles na Globo segundo a própria Globo:
Esteve à frente de importantes coberturas, tais como a do comício no Vale do Anhangabaú pela campanha das Diretas Já, em 1984. (…) Também integrou a equipe mobilizada para a cobertura da doença e, em seguida, do falecimento do então presidente eleito Tancredo Neves.
Em abril de 1989, Dornelles foi transferido para o escritório da TV Globo em Londres, onde começou a trabalhar como correspondente. Durante os anos em que esteve na Inglaterra, realizou importantes coberturas jornalísticas sobre a crise do leste europeu. 
Na então Tchecoslováquia, cobriu a chamada Revolução de Veludo, em novembro de 1989. No mesmo período, esteve no Irã, onde foi responsável pela cobertura da morte do aiatolá Khomeini, cujo enterro reuniu cerca de dez milhões de iranianos; e na Alemanha, onde acompanhou o primeiro ano-novo após a queda do Muro de Berlim.
Em outubro de 1990, recém-chegado de Londres, Carlos Dornelles foi convidado (…) para trabalhar como correspondente em Nova York. No ano seguinte, participou da equipe de cobertura da Guerra do Golfo, um dos momentos mais marcantes de sua carreira.  (…) 
Ainda como correspondente em Nova York, realizou a cobertura da prisão e da morte do traficante colombiano Pablo Escobar, em 1991 e 1993, e esteve diversas vezes no Peru cobrindo o governo e a queda do ex-presidente Alberto Fujimori.
Ao longo de sua carreira, também participou de importantes coberturas esportivas, como a da Copa do Mundo de 1990, na Itália; a de 1994, nos Estados Unidos, em que o Brasil conquistou o tetracampeonato; e a de 1998, na França. Fez parte, ainda, da equipe que cobriu as Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, em 1988, e de Sidney, na Austrália, em 2000. 
Bem, tanta coisa não foi suficiente para que Dornelles não fosse demitido, em 2008. Dornelles, algum tempo antes, tinha manifestado publicamente seu incômodo com a forma como a Globo vinha cobrindo política. 
Antes de ser mandado embora, passou pelo exílio jornalístico siberiano  do Globo Rural, encostado e visto por agricultores sem muito que fazer nos domingos pela manhã.
Tanta coisa, também, não foi suficiente para que Dornelles, a partir de um determinado momento na Globo, desfrutasse dos direitos trabalhistas nacionais. Dornelles foi instado a se tornar, como tantos outros funcionários graduados da Globo, o chamado “PJ” – pessoa jurídica. É uma manobra comum entre as empresas jornalísticas, com raras e caras exceções como a Abril.
Usar PJs é uma gambiarra de discutível legalidade e indiscutível imoralidade. O objetivo é simplesmente não pagar o imposto devido. A empresa simula que o funcionário presta serviços eventuais, e com isso economiza consideravelmente. Dornelles era um PJ ao deixar a Globo, embora isso não esteja em seu verbete.
Para os cofres públicos, a proliferação de PJs é uma calamidade. Falta dinheiro que poderia construir escolas, ou pontes, ou hospitais. Para o empregado, é nocivo. Fundo de garantia, 13.o salário, férias etc simplesmente desaparecem. É bom apenas para os acionistas.
O que leva uma empresa como a Globo a isso? Falta de dinheiro? Ora, a Globo – por causa de outro expediente de duvidosa ética, os chamados BVs, algo que mantém as agências de publicidade numa virtual dependência da empresa – fica, sozinha, com praticamente metade de toda a receita publicitária brasileira. 
(Os BVs — bonificações por volume — explicam em boa parte o milagre de a receita publicitária da Globo aumentar no ano em que teve a pior audiência de sua história. De Xuxa a Faustão, do Jornal Nacional ao Fantástico, o Ibope marcha soberbamente para trás.)
Isso, para resumir, significa o seguinte: a Globo teria que ser administrativamente muito inepta para não ser muito lucrativa com tanto faturamento. Por que, então, tornar PJs funcionários como Carlos Dornelles, se não é por sobrevivência? 
A melhor resposta é: por ganância, associada a um sentimento de impunidade comum em quem tem muito poder de retaliação e intimidação. E esperteza: fazendo este tipo de coisa, a empresa ganha vantagem competitiva sobre as rivais seus custos diminuem. A Abril, que não tem PJs, já foi maior que a Globo.  Hoje é algumas vezes menor.
O risco para a empresa é que, em algum momento, em geral na saída, o PJ a processe. Foi o que Dornelles fez. Ele reivindica mais de 1 milhão de reais da Globo na Justiça. Empresas jornalísticas deveriam ter um comportamento exemplar nas práticas administrativas, dado o seu papel fiscalizador.  
Você não pode cobrar retidão de governos e políticos  se faz curvas. Isso se chama cinismo. Há que ter muita desfaçatez para dar lições de moral quando você agride o interesse público ao recolher menos imposto do que deveria.
Em vários países, as autoridades estão trazendo à luz aberrações fiscais para que a sociedade se inteire de algo que é crítico para seu bom funcionamento. Na Inglaterra, vieram à luz os impostos pífios pagos por colossos como Google, Amazon e Starbucks com o propósito de embaraçar as empresas e forçá-las a pagar sua taxa justa. 
O caso Dornelles é uma lembrança oportuna de que o governo brasileiro deveria jogar luzes – o mais eficiente desinfetante —  nas práticas fiscais de empresas como a Globo com seus PJs de araque.