terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Renúncia do Papa. A culpa é do mordomo ? Ou o caso não é um mero romance policial


  • Andrew Medichini/AP
    Em foto tirada no dia 23 de maio, o mordomo Paolo Gabriele (na frente) acompanha Bento 16 no Papa Móvel, chegando à Praça São Pedro, no Vaticano. Gabriele é acusado de vazar para a imprensa documentos secretos do Vaticano
    Em foto tirada no dia 23 de maio, o mordomo Paolo Gabriele (na frente) acompanha Bento 16 no Papa Móvel, chegando à Praça São Pedro, no Vaticano. Gabriele é acusado de vazar para a imprensa documentos secretos do Vaticano

Nesta matéria publicada em setembro do ano passado em El País, o jornalista Pablo Ordaz expõe fatos que certamente contribuíram para a decisão de Bento 16 renunciar ao papado no dia 28 de fevereiro próximo. (Lais Amaral)   

El País

Pablo Ordaz
Em Roma (Itália)

Há seis anos, todos os dias, antes do amanhecer e depois do anoitecer, Paolo Gabriele, 46, casado e pai de três filhos, percorria a pé a distância entre sua residência e o apartamento de Bento 16. 
Na ida e na volta, o mordomo do papa passava junto a um caixa automático muito peculiar. 
O fundo da tela reproduz "A Criação de Adão", o afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina, e entre as línguas que o convidam a introduzir o cartão e sacar euros está o latim: "Inserito scidulam quaeso ut faciundam cognoscas rationem" (que pode ser traduzido como: "Coloque seu cartão para realizar suas operações").
Há exatamente quatro meses Paolo Gabriele deixou de passar junto do caixa do Banco do Vaticano. Em 23 de maio, a polícia o deteve sob a acusação de roubar e vazar para a imprensa a correspondência particular de Joseph Ratzinger. Gabriele, também conhecido como Paoletto, afirmou que sua única intenção foi ajudar a Igreja e o papa, revelando as intrigas palacianas. 
O julgamento, que começa no próximo sábado (29), na Cidade do Vaticano, deverá esclarecer se, como no caixa, a religião, a arte e o latim só serviam de envoltório para um motivo muito mais terreno.
A primeira parte da história é bem conhecida. Há um ano, um grande número de documentos confeccionados para serem lidos exclusivamente por Bento 16 começou a vazar na mídia. 
O primeiro foi uma carta do arcebispo Carlo Maria Viganò advertindo o papa sobre diversos casos de corrupção dentro do Vaticano. Depois se conheceu outro relato, elaborado pelo cardeal colombiano Darío Castrillón, no qual se falava de uma estranha conjuração para matar Ratzinger - "o papa morrerá em 12 meses" - e das más relações entre o sucessor de Pedro e seu secretário de Estado, monsenhor Tarcisio Bertone.
Um espião, não se sabe com que interesse nem a que preço, continuou fornecendo documentos cujo denominador comum era a luta de poder acirrada no seio da Cúria. 
Depois de uma temporada encerrado em silêncio, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, acabou admitindo que a Igreja estava sofrendo seu "VaticanLeaks" particular e o jornal "L'Osservatore Romano" publicou um editorial em que retratava a situação de um papa idoso, doente e só: "um pastor rodeado de lobos". 
A secretaria de Estado do Vaticano reagiu finalmente encarregando o cardeal espanhol Julián Herranz de procurar o suposto culpado, e, no final de maio, surgiu a surpresa: o traidor, o espião, o corvo, era o fiel Paoletto - o mordomo do papa. 
O que o despertava às 6h30, o ajudava a vestir-se, a preparar a missa, lhe servia o desjejum e o almoço, o que --por volta das 9 da noite-- lhe preparava uma infusão e o ajudava a despir-se e a ir para a cama...
A segunda parte da história já não é tão conhecida. Paolo Gabriele passou os dois primeiros meses de cativeiro em um calabouço e de 21 de julho para cá esperou o julgamento em prisão domiciliar. 
Também que, junto com uma multidão de documentos, os agentes da polícia encontraram em sua residência no Vaticano uma pepita de ouro, uma edição ilustrada da "Eneida" de Annibal Caro, de 1581, e um cheque sem cobrar de 100 mil euros que José Luiz Mendoza, presidente da Universidade Católica San Antonio de Murcia (UCAM), havia enviado ao papa. 
Soube-se também que Joseph Ratzinger está com pena e que Paolo Gabriele lhe pediu perdão. Inclusive que, junto dele no banco dos réus se sentará Claudio Sciarpelletti, um técnico em informática que, ao que parece, o encobriu.
O que não se sabe é o fundamental. Por que fez isso realmente? Foi uma arma contra o papa nas mãos de outros? De quem? Atuou sozinho ou o Vaticano ainda é um ninho de corvos? Só foi movido por um estranho desejo de limpar a Igreja de intrigas ou, pelo contrário, foi o vil metal que o levou a trair o papa? E, sobretudo, que relação teve sua detenção com a substituição fulminante de Ettore Gotti Tedeschi à frente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano?
Porque Paolo Gabriele e Gotti Tedeschi, o mordomo e o banqueiro, ambos muito próximos de Joseph Ratzinger, caíram ao mesmo tempo. Sobre o primeiro, o Vaticano soltou a polícia. 
Sobre o segundo, o descrédito. Criticou-se ferozmente sua gestão e inclusive se pôs em dúvida sua capacidade psicológica, a ponto de que Tedeschi, 67, também presidente da filial italiana do Banco Santander e velho amigo do papa, esteve prestes a contar o que tinha visto nos abismos do dinheiro da Igreja. "Prefiro não falar", concluiu, "se o fizesse só diria palavras feias. Debato-me entre a ânsia de explicar a verdade e não querer perturbar o santo padre."
Mas sim, falou. Duas semanas depois de sua demissão, a polícia apareceu de surpresa em sua casa em Piacenza e em seus escritórios em Milão. Um agente da polícia lhe informou que sua presença ali não obedecia a nenhum assunto relacionado com o Banco do Vaticano, mas sim com uma investigação antiga sobre comissões ilegais na venda de helicópteros para a Índia. 
O banqueiro reagiu com alívio: "Uma revista? Pensei que vinham me dar um tiro". O curioso é que os agentes, que teoricamente iam por outro assunto, acabaram levando documentação sobre supostas operações de lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano. 
A mídia italiana publicou que, entre as anotações apreendidas, havia detalhes muito precisos sobre operações ilícitas realizadas por prelados, homens de negócios mais ou menos sujos - que na Itália são chamados de "faccendieri" -, políticos de alto escalão e até chefes da máfia. O escândalo estava prestes a ultrapassar todos os limites quando ocorreu um fato muito significativo.
A Igreja mandou calar. Em uma sexta-feira à tarde, em uma hora totalmente incomum, o Vaticano emitiu um duro comunicado no qual advertia policiais, jornalistas, promotores, juízes e políticos do governo de que o material apreendido na casa de Tedeschi era propriedade da Santa Sé e que, se continuasse havendo vazamentos da investigação --um esporte nacional na Itália--, processaria quem fosse necessário. 
Os vazamentos pararam e desde então, no início de julho, o caso foi perdendo força, talvez ajudado pelo verão --o papa passa três meses descansando em sua residência de Castel Gandolfo e a Cúria tenta imitá-lo-- e o controle férreo da informação.
No próximo sábado, às 9h30, Paolo Gabriele se sentará no banco dos réus para enfrentar a acusação de "roubo agravado". O presidente do tribunal será Giuseppe Dalla Torre, acompanhado de Paolo Papanti Pelletier e Venerando Marano. 
A acusação será dirigida pelo promotor de justiça do Vaticano, Nicola Picardi, e a defesa do mordomo estará a cargo da advogada Cristiana Arru, depois que o outro advogado --Carlo Fusco, amigo de infância de Paoletto-- decidiu retirar-se por causa de "divergências" (não deu mais explicações) no processo.
Segundo o juiz do Vaticano Paolo Papanti, o mordomo poderá ser condenado a no máximo oito anos de prisão, em função do Código Penal vigente no Vaticano desde 1889. No decorrer do julgamento, o papa pode ainda optar por conceder a Gabriele a graça do indulto. Mas ele não poderá voltar a trabalhar no Vaticano. 
O regulamento geral da Cúria Romana --aprovado em 1999 por João Paulo 2º-- prevê a "demissão de ofício" para quem comete atos graves de indisciplina e insubordinação. Não é necessário ser um lince para intuir que a Igreja quer encerrar o assunto o quanto antes. Só oito jornalistas --escolhidos pela sala de imprensa do Vaticano-- poderão entrar no julgamento, mas sem material de gravação.
Se Gabriele aceitar as acusações e a condenação sem abrir a boca, sem contar o como e o porquê dos vazamentos, o Vaticano talvez consiga evitar um novo escândalo midiático, mas a verdade voltará a ficar oculta. A mancha da suspeita --a que há décadas envolve o Banco do Vaticano-- não se lava com caixas modernas enfeitadas de arte e de latim: "Inserito scidulam...".
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Papa Bento 16 visita Líbano à sombra da guerra na Síria21 fotos

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14.set.2012 - Papa Bento 16 acena para fiéis ao chegar ao Aeroporto Roma Ciampino nesta sexta-feira (14). Ele embarca para o Líbano para uma viagem de três dias. O Papa visita o Oriente Médio à sombra da guerra na Síria Leia mais Vincenzo Pinto/AFP Photo


Gabriele enfrenta prisões lotadas

A Igreja não tem prisões além das do pecado. Se finalmente recaísse sobre Paolo Gabriele uma pena de prisão, teria que cumpri-la em uma prisão italiana. E isso, nas palavras de Bento 16, representaria uma dupla condenação. 
No último Natal, o papa fez uma visita pastoral ao presídio romano de Rebibbia, e o que viu ali lhe causou tal espanto que, diante da ministra italiana da Justiça, Paola Severino, declarou: "A superlotação e a deterioração das prisões tornam mais amarga a prisão, representam uma dupla pena".
As condições desde então não melhoraram, de maneira que não parece previsível que Paoletto, apesar de sua culpa, possa terminar recluso no inferno de uma prisão. Outra opção seria o confinamento em um convento, do modo que a justiça italiana - que nunca deixa de surpreender - acaba de adotar com Luigi Lusi, senador do Partido Democrático (PD, de centro-esquerda) processado sob a acusação de ter roubado 25 milhões de euros quando era tesoureiro de La Margherita.
Enquanto isso, o papa busca um substituto. Sob o título "Vaticano procura mordomo", o jornal "La Stampa" informou há alguns dias que Joseph Ratzinger levou para Castel Gandolfo Angelo Gugel, um mordomo já veterano, de absoluta confiança, enquanto decide entre Sandro Mariotti, aliás Sandrone, ou Andrea Monzo, filho de um porteiro da Congregação para a Doutrina da Fé. Como se vê, não é um assunto menor.
O mordomo é uma das pessoas mais próximas do papa. Faz parte do que intramuros se costuma chamar de "família pontifícia", os habitantes do Apartamento. Trata-se do padre Georg Gänswein, secretário pessoal do papa, do padre maltês Alfred Xuereb, quatro laicas consagradas - Carmela, Loredana, Cristina e Rosella - e uma freira, irmã Birgit Wansing, que o ajuda nos trabalhos de estudo e escrita. Trabalhos que certamente trazem ao papa bons benefícios.
Acaba-se de saber que Joseph Ratzinger já terminou seu terceiro volume sobre a vida de Jesus, dedicado aos textos de Mateus e Lucas sobre as circunstâncias do nascimento em Nazaré, e que decidiu que será uma editora laica, a Rizzoli, a encarregada de sua publicação. O contrato não é mau: 2 milhões de euros.

As chaves do escândalo na Santa Sé


- Fevereiro de 2012. O vazamento para vários meios de comunicação italianos de documentos secretos (entre eles algumas cartas relacionadas a um suposto complô para matar o papa Bento 16) conturbam o Vaticano. 
Os documentos vazados deixam as lutas de poder dentro da Cúria descobertas. O porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, admite que a Igreja está sofrendo seu próprio "VaticanLeaks". O jornal oficial do Vaticano, "L'Osservatore Romano", descreve o papa Bento 16 como "um pastor rodeado de lobos".
- 23 de maio. Cai o "espião do Vaticano". As investigações conduzem até Paolo Gabriele, 46, ajudante de câmara do papa e uma das pessoas de sua máxima confiança. Gabriele, um homem devoto, casado e pai de três filhos, presta declaração diante de Nicola Picardi, promotor geral do Vaticano. A polícia encontra em sua casa "caixas repletas de documentos".
A polícia vaticana encontra fotocópias de documentos e objetos do papa, uma edição do século 16 da "Eneida" e inclusive um cheque no valor de 100 mil euros que a Universidade Católica de San Antonio (Murcia, Espanha) enviou para o papa.
- 27 de maio. Paolo Gabriele nomeia dois advogados. A polícia vaticana investiga suas contas bancárias, procura cúmplices e tenta averiguar o motivo dos vazamentos. A hipótese dominante é que se trata de desacreditar o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, amigo e braço-direito do papa, dentro da luta pela sucessão. Nos documentos vazados, Bertone aparece como um homem ambicioso e todo-poderoso, cada vez mais distante de Bento 16.
- 3 de junho. O jornal "La Repubblica" publica três outras cartas. O remetente anônimo acusa Bertone e Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento 16, de serem os "verdadeiros responsáveis" pela fuga da informação, e diz que Gabriele é um bode-expiatório. 
O papa lamenta o tratamento que o caso recebe na mídia, que "amplifica deduções gratuitas". Alguns dias depois, o cardeal Bertone acusa os jornalistas pelo clima de "mesquinharia, mentiras e calúnias" e acusa a mídia de "imitar Dan Brown".
- 30 de junho. O Vaticano contrata o jornalista americano Greg Burke para melhorar sua imagem depois dos escândalos provocados pelo vazamento de documentos.
- 21 de julho. O juiz de instrução do caso, Piero Bonet, concede prisão domiciliar a Gabriele, detido desde 24 de maio, à espera do julgamento.
- 24 de julho. Gabriele divulga uma carta dirigida a Bento 16 pedindo perdão e dizendo-lhe que está muito arrependido.
- 13 de agosto. O juiz ordena o processamento de Gabriele pelo roubo com agravantes de documentos secretos da Santa Sé. O magistrado pede que também seja julgado Claudio Sciarpelletti, um programador de informática de 48 anos empregado na Secretaria de Estado da Santa Sé. O informático supostamente teria ajudado Gabriele no tráfico de documentos.
- 30 de agosto. O advogado de Gabriele, Carlo Fusco, renuncia, alegando "divergências sobre a estratégia defensiva" diante do julgamento.
- 17 de setembro. O juiz estabelece para 29 de setembro o início do julgamento contra Gabriele e Sciarpelletti pelo roubo e divulgação dos documentos secretos da Santa Sé. Caso sejam considerados culpados, a pena varia de um a seis anos de prisão. 
Gabriele foi submetido a duas perícias psiquiátricas, uma por parte do tribunal Vaticano e outra pedida por seu advogado, e ambas demonstraram que é "uma pessoa correta e normal" que cometeu um "fato extremamente grave". A imprensa italiana garante que cerca de 20 pessoas estão sendo investigadas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O embate entre Carlos Dornelles e a Globo


O jornalista Carlos Donrnelles


Por: Paulo Nogueira
A sociedade tem que saber mais sobre as práticas fiscais de corporações como a Globo.
Carlos Dornelles é um verbete grande no espaço de memórias do site da Globo. Ali ficamos sabendo que Dornelles, gaúcho de Cachoeira do Sul nascido em 1954, fez muitas coisas na Globo.

Vou transcrever um trecho para conhecermos melhor Dornelles na Globo segundo a própria Globo:
Esteve à frente de importantes coberturas, tais como a do comício no Vale do Anhangabaú pela campanha das Diretas Já, em 1984. (…) Também integrou a equipe mobilizada para a cobertura da doença e, em seguida, do falecimento do então presidente eleito Tancredo Neves.
Em abril de 1989, Dornelles foi transferido para o escritório da TV Globo em Londres, onde começou a trabalhar como correspondente. Durante os anos em que esteve na Inglaterra, realizou importantes coberturas jornalísticas sobre a crise do leste europeu. 
Na então Tchecoslováquia, cobriu a chamada Revolução de Veludo, em novembro de 1989. No mesmo período, esteve no Irã, onde foi responsável pela cobertura da morte do aiatolá Khomeini, cujo enterro reuniu cerca de dez milhões de iranianos; e na Alemanha, onde acompanhou o primeiro ano-novo após a queda do Muro de Berlim.
Em outubro de 1990, recém-chegado de Londres, Carlos Dornelles foi convidado (…) para trabalhar como correspondente em Nova York. No ano seguinte, participou da equipe de cobertura da Guerra do Golfo, um dos momentos mais marcantes de sua carreira.  (…) 
Ainda como correspondente em Nova York, realizou a cobertura da prisão e da morte do traficante colombiano Pablo Escobar, em 1991 e 1993, e esteve diversas vezes no Peru cobrindo o governo e a queda do ex-presidente Alberto Fujimori.
Ao longo de sua carreira, também participou de importantes coberturas esportivas, como a da Copa do Mundo de 1990, na Itália; a de 1994, nos Estados Unidos, em que o Brasil conquistou o tetracampeonato; e a de 1998, na França. Fez parte, ainda, da equipe que cobriu as Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, em 1988, e de Sidney, na Austrália, em 2000. 
Bem, tanta coisa não foi suficiente para que Dornelles não fosse demitido, em 2008. Dornelles, algum tempo antes, tinha manifestado publicamente seu incômodo com a forma como a Globo vinha cobrindo política. 
Antes de ser mandado embora, passou pelo exílio jornalístico siberiano  do Globo Rural, encostado e visto por agricultores sem muito que fazer nos domingos pela manhã.
Tanta coisa, também, não foi suficiente para que Dornelles, a partir de um determinado momento na Globo, desfrutasse dos direitos trabalhistas nacionais. Dornelles foi instado a se tornar, como tantos outros funcionários graduados da Globo, o chamado “PJ” – pessoa jurídica. É uma manobra comum entre as empresas jornalísticas, com raras e caras exceções como a Abril.
Usar PJs é uma gambiarra de discutível legalidade e indiscutível imoralidade. O objetivo é simplesmente não pagar o imposto devido. A empresa simula que o funcionário presta serviços eventuais, e com isso economiza consideravelmente. Dornelles era um PJ ao deixar a Globo, embora isso não esteja em seu verbete.
Para os cofres públicos, a proliferação de PJs é uma calamidade. Falta dinheiro que poderia construir escolas, ou pontes, ou hospitais. Para o empregado, é nocivo. Fundo de garantia, 13.o salário, férias etc simplesmente desaparecem. É bom apenas para os acionistas.
O que leva uma empresa como a Globo a isso? Falta de dinheiro? Ora, a Globo – por causa de outro expediente de duvidosa ética, os chamados BVs, algo que mantém as agências de publicidade numa virtual dependência da empresa – fica, sozinha, com praticamente metade de toda a receita publicitária brasileira. 
(Os BVs — bonificações por volume — explicam em boa parte o milagre de a receita publicitária da Globo aumentar no ano em que teve a pior audiência de sua história. De Xuxa a Faustão, do Jornal Nacional ao Fantástico, o Ibope marcha soberbamente para trás.)
Isso, para resumir, significa o seguinte: a Globo teria que ser administrativamente muito inepta para não ser muito lucrativa com tanto faturamento. Por que, então, tornar PJs funcionários como Carlos Dornelles, se não é por sobrevivência? 
A melhor resposta é: por ganância, associada a um sentimento de impunidade comum em quem tem muito poder de retaliação e intimidação. E esperteza: fazendo este tipo de coisa, a empresa ganha vantagem competitiva sobre as rivais seus custos diminuem. A Abril, que não tem PJs, já foi maior que a Globo.  Hoje é algumas vezes menor.
O risco para a empresa é que, em algum momento, em geral na saída, o PJ a processe. Foi o que Dornelles fez. Ele reivindica mais de 1 milhão de reais da Globo na Justiça. Empresas jornalísticas deveriam ter um comportamento exemplar nas práticas administrativas, dado o seu papel fiscalizador.  
Você não pode cobrar retidão de governos e políticos  se faz curvas. Isso se chama cinismo. Há que ter muita desfaçatez para dar lições de moral quando você agride o interesse público ao recolher menos imposto do que deveria.
Em vários países, as autoridades estão trazendo à luz aberrações fiscais para que a sociedade se inteire de algo que é crítico para seu bom funcionamento. Na Inglaterra, vieram à luz os impostos pífios pagos por colossos como Google, Amazon e Starbucks com o propósito de embaraçar as empresas e forçá-las a pagar sua taxa justa. 
O caso Dornelles é uma lembrança oportuna de que o governo brasileiro deveria jogar luzes – o mais eficiente desinfetante —  nas práticas fiscais de empresas como a Globo com seus PJs de araque.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lincoln - o que Spielberg não mostrou no filme



Lincoln, filme de Spielberg - foto, band-uol




Vicenç Navarro*
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O filme “Lincoln”, produzido e dirigido por um dos diretores mais conhecidos dos EUA, Steven Spielberg, fez reviver um grande interesse pela figura de Lincoln, um dos presidentes que, como Franklin D. Roosevelt, sempre apareceu no ideário estadunidense com grande lembrança popular. 



Destaca-se tal figura política como o fiador da unidade dos EUA, após derrotar os confederados que aspiravam à secessão dos Estados do Sul daquele Estado federal. É também uma figura que se destaca na história dos EUA por ter abolido a escravidão e ter dado a liberdade e a cidadania aos descendentes das populações imigrantes de origem africana, ou seja, a população negra, que nos EUA se conhece como a população afro-americana.

Lincoln foi também um dos fundadores do Partido Republicano, que em suas origens foi diretamente oposto ao Partido Republicano atual - este altamente influenciado hoje por um movimento – o Tea Party – chauvinista, racista e reacionário, por trás do qual existem interesses econômicos e financeiros que querem eliminar a influência do governo federal na vida econômica, social e política do país. 


O Partido Republicano fundado pelo presidente Lincoln era, pelo contrário, um partido federalista, que considerou o governo federal como avalista dos Direitos Humanos. E entre eles, a emancipação dos escravos, tema central do filme “Lincoln” e para o qual o presidente deu maior expressão. 


Terminar com a escravidão significava que o escravo passava a ser trabalhador, dono de seu próprio trabalho.

Lincoln, inclusive antes de ser presidente, considerou outras conquistas sociais como parte também dos Direitos Humanos e, entre elas, o direito do mundo do trabalho de controlar não só a atividade em si, mas também o produto resultante dela. 


O direito de emancipação dos escravos transformava o escravo em uma pessoa livre assalariada, unida – segundo ele – em laços fraternais com os outros membros da classe trabalhadora, independentemente da cor da pele.

Suas demandas de que o escravo deixasse de sê-lo e de que o trabalhador – tanto branco como negro – fosse o dono não só de seu trabalho, mas também do produto de seu trabalho, eram igualmente revolucionárias. A emancipação da escravidão requeria que a pessoa fosse dona do seu trabalho. 

A emancipação da classe trabalhadora significava que a classe trabalhadora fosse dona do produto do seu trabalho. E Lincoln demandou os dois tipos de emancipação. O segundo tipo de emancipação, entretanto, nem sequer é citado no filme Lincoln. 


Na realidade, é ignorado. E utilizo a expressão “ignorado” em lugar de “escondido” porque é totalmente possível que os autores do filme ou do livro sobre o qual se baseia nem sequer conheçam a história real de Lincoln.

A Guerra Fria no mundo cultural e inclusive acadêmico dos EUA (que continua existindo) e o enorme domínio do que ali se chama a Corporate Class (a classe dos proprietários e gestores do grande capital) sobre a vida, não só econômica, mas também cívica e cultural, explica que a história formal dos EUA que se ensina nas escolas e nas universidades seja muito distorcida, purificada de qualquer contaminação ideológica procedente do movimento operário, seja socialismo, comunismo ou anarquismo. 


A grande maioria dos estudantes estadunidenses, inclusive das universidades mais prestigiadas e conhecidas, não sabe que a festa de 1º de Maio, celebrada mundialmente como o Dia Internacional do Trabalho, é uma festa em homenagem aos sindicalistas estadunidenses que morreram em defesa de trabalhar oito horas por dia (em lugar de doze), vitória que transformou tal reivindicação exitosa na maioria dos países do mundo. 


Nos EUA, tal dia, o 1º de Maio, além de não ser festivo, é o dia da Lei e da Ordem - Law and Order Day - (ver o livro People’s History of the U.S., de Howard Zinm). A história real dos EUA é muito diferente da história formal promovida pelas estruturas de poder estadunidenses.

As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln


Lincoln, já quando era membro da Câmara Legislativa de seu Estado de Ilinóis, simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial. 

Na realidade, Lincoln, tal como indiquei no começo do artigo, considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, que está convenientemente esquecida nos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class. 


Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos Estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho. 

Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via que ia contra seus próprios interesses. 


Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração (…). 


Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”. Leitores dos escritos de Karl Marx, contemporâneo de Abrahan Lincoln, lembrarão que algumas destas frases eram muito semelhantes às utilizadas por tal analista do capitalismo em sua análise da relação capital/trabalho sob tal sistema econômico.

Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo. 


Os escritos de Karl Marx eram conhecidos entre os grupos de intelectuais que estavam profundamente insatisfeitos com a situação política e econômica dos EUA, como era o caso de Lincoln. Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período. 

Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, quem convidou para ser colunista de tal jornal. Nas colunas de seu jornal incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente. 


Alguns destes imigrantes alemães (conhecidos no EUA daquele momento como os “Republicanos Vermelhos”) lutaram mais tarde com as tropas federais na Guerra Civil, dirigidos pelo presidente Lincoln.

Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que se apresentasse à presidência do país. 


E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervente leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se a sua equipe. 


Na realidade, já antes, como congressista, representante da cidadania de Springfield no Estado de Ilinóis, apoiou frequentemente os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos.

Lincoln, grande amigo do mundo do trabalho 
estadunidense e internacional


Seu conhecimento das tradições revolucionárias existentes naquele período não era casual, e sim fruto de suas simpatias com o movimento operário internacional e suas instituições. Incentivou os trabalhadores dos EUA a organizar e estabelecer sindicatos antes e durante sua presidência. 

Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova York afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. 


A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”. E, durante a campanha eleitoral, o presidente Lincoln promoveu a postura contra a escravidão afirmando explicitamente que a libertação dos escravos permitiria aos trabalhadores exigir os salários que lhes permitissem viver decentemente e com dignidade, ajudando com isso a aumentar os salários de todos os trabalhadores, tanto negros como brancos.

Marx, e também Engels, escreveram com entusiasmo sobre a campanha eleitoral de Lincoln, em um momento em que ambos estavam preparando a Primeira Internacional do Movimento Operário. 


Em um momento das sessões, Marx e Engels propuseram à Internacional que enviasse uma carta ao presidente Lincoln felicitando-o por sua atitude e postura. 


Na carta, a Primeira Internacional felicitava o povo dos EUA e seu presidente por, ao terminar com a escravidão, haver favorecido a liberação de toda a classe trabalhadora, não só estadunidense, mas também mundial.

O presidente Lincoln respondeu, agradecendo a nota e dizendo que valorizava o apoio dos trabalhadores do mundo a suas políticas, em um tom cordial, que certamente criou grande alarme entre os establishments econômicos, financeiros e políticos de ambos os lados do Atlântico. 



Estava claro, a nível internacional que, como afirmou mais tarde o dirigente socialista estadunidense Eugene Victor Debs, em sua própria campanha eleitoral, “Lincoln havia sido um revolucionário e que, por paradoxal que pudesse parecer, o Partido Republicando havia tido, em suas origens, uma tonalidade vermelha”.

A revolução democrática que Lincoln começou 
e que nunca se desenvolveu


Não é preciso dizer que nenhum destes dados aparece no filme Lincoln, nem são amplamente conhecidos nos EUA. Mas, como bem afirmam John Nichols e Robin Blackburn (outro autor que escreveu extensamente sobre Lincoln e Marx), para entender Lincoln tem que entender o período e o contexto nos quais ele viveu. 

Lincoln não era um marxista (termo sobreutilizado na literatura historiográfica e que o próprio Marx denunciou) e não era sua intenção eliminar o capitalismo, mas corrigir o enorme desequilíbrio existente nele, entre o capital e o trabalho. 


Mas, não há dúvida de que foi altamente influenciado por Marx e outros pensadores socialistas, com os quais compartilhou seus desejos imediatos, claramente simpatizando com eles, levando sua postura a altos níveis de radicalismo em seu compromisso democrático. É uma tergiversação histórica ignorar tais fatos, como faz o filme Lincoln.

Não resta dúvida que Lincoln foi uma personalidade complexa, com muitos altos e baixos. Mas as simpatias estão escritas e bem definidas em seus discursos. 



E mais, os intensos debates que aconteciam nas esquerdas europeias se reproduziam também nos círculos progressistas dos EUA. Na realidade, a maior influência sobre Lincoln foi a dos socialistas utópicos alemães, muitos dos quais se refugiaram em Ilinóis fugindo da repressão europeia.

O comunalismo que caracterizou tais socialistas influenciou a concepção democrática de Lincoln, interpretando democracia como a governança das instituições políticas por parte do povo, no qual as classes populares eram a maioria. 


Sua famosa Expressão (que se converteu no esplêndido slogan democrático mais conhecido no mundo – Democracy for the people, of the people and by the people - claramente afirma a impossibilidade de ter uma democracia do povo e para o povo sem que seja realizada e levada a cabo pelo próprio povo. 

Daí vem a libertação dos escravos e do mundo do trabalho como elementos essenciais de tal democratização. Seu conceito de igualdade levava inevitavelmente a um conflito com o domínio de tais instituições políticas pelo capital. 


E a realidade existente hoje nos EUA e que detalho em meu artigo “O que não se disse nos meios de comunicação sobre as eleições nos EUA” (Público, 13.11.12)é uma prova disso. Hoje a Corporate Class controla as instituições políticas do país.

Últimas observações e um pedido


Repito que nenhuma destas realidades aparece no filme. Spielberg não é, afinal, nenhum Pontecorvo e o clima intelectual estadunidense ainda está estancado na Guerra Fria que lhe empobrece intelectualmente. 

“Socialismo” continua sendo uma palavra mal vista nos círculos do establishment cultural daquele país. E, na terra de Lincoln, aquele projeto democrático que ele sonhou nunca se realizou devido a enorme influência do poder do capital sobre as instituições democráticas, influência que diminuiu enormemente a expressão democrática naquele país. 


E o paradoxo brutal da historia é que o Partido Republicano se tenha convertido no instrumento político mais agressivo hoje existente a serviço do capital.

Certamente, agradeceria que todas as pessoas que achem este artigo interessante o distribuam amplamente, incluindo, em sua distribuição os críticos de cinema, que em sua promoção do filme, seguramente não dirão nada do outro Lincoln desconhecido em seu próprio país (e em muitos outros). 



Um dos fundadores do movimento revolucionário democrático nem sequer é reconhecido como tal. Sua emancipação dos escravos é uma grande vitória que deve ser celebrada. Mas Lincoln foi muito além. E disto nem se fala.


*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia. Este artigo foi publicado emhttp://blogs.publico.é/dominiopublico/6405/o-que-a-pelicula-Lincoln-não-dice-sobre-Lincoln/

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Mais um blogueiro é perseguido pelos poderosos


        
O jornalista e blogueiro Rodrigo Vianna



  "A imprensa pode causar mais danos que a bomba atômica. E deixar cicatrizes no cérebro."  Noam Chomsky.

  “Com o tempo, uma imprensa cínica, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma”. Joseph Pulitzer, jornalista (há mais de um século).

   "A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."  Prof. Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard.


Por Lais Amaral 

O jornalista Rodrigo Vianna, responsável pelo Blog "Escrevinhador", conhece bem os intestinos das Velha Mídia Comercial. Trabalhou na Globo (até quando seu estômago suportou). Seu blog é um  dos mais respeitados e prestigiados de toda a Blogosfera. Assim como ele é um dos jornalistas mais respeitados no meio. Sua matéria fala por si.   



Justiça do Rio: TV GLobo joga em casa, 
mas Kamel está derrotado pela História


por Rodrigo Vianna


Na praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha vinte e cinco cruzeiros/E o teu retrato… Vinte e cinco/Eu, francamente, achei barato/Pra me livrarem/Do meu atraso de vida (Paulo Vanzolini, “Praça Clóvis”)

Um advogado amigo costuma dizer: “no Rio, a Globo joga em casa”.

Hoje, tivemos mais uma prova. Ano passado, fui condenado em primeira instância, num processo movido pelo diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel. Importante dizer: a juíza na primeira instância não me permitiu apresentar testemunhas, laudos, coisa nenhuma. Acolheu na íntegra a argumentação do diretor da Globo – sem que eu tivesse sequer a chance de estar à frente da meritíssima para esclarecer minhas posições.

Recorremos ao Tribunal de Justiça, também no Rio. Antes de discutir o mérito da ação,pedimos que o TJ analisasse um “agravo retido” (espécie de recurso prévio) que obrigasse a primeira instância a ouvir as testemunhas de defesa e os especialistas de duas universidades que gostaríamos de ver consultados na ação.

O Tribunal, em decisão proferida nessa terça-feira (15/01), ignorou quase integralmente nossa argumentação. Negou o agravo e, no mérito, deu provimento apenas parcial à nossa apelação – reduzindo o valor da indenização que a meritíssima de primeira instância fixara em absurdos 50 mil reais. 

Ato contínuo, certos blogs da direita midiática começaram a dar repercussão à decisão. Claro! São todos fidelíssimos aos patrões e ao diretor da Globo, na luta que estes travam contra outros jornalistas.

Sobre esse processo, gostaria de esclarecer alguns pontos. Primeiro, cabe recurso e vamos recorrer!

Segundo, está claro que Ali Kamel usa a Justiça para se vingar de todos aqueles que criticam o papel por ele exercido à frente da maior emissora de TV do país. Kamel foi derrotado duas vezes nas urnas: perdeu em 2006 (quando a Globo alinhou-se ao delegado Bruno na véspera do primeiro turno, num episódio muito bem narrado pela CartaCapital, naquela época) e perdeu em 2010 (quando o episódio da “bolinha de papel” foi desmascarado pelos blogs e redes sociais). Contra as quotas, contra o Bolsa-Família, contra os avanços dos anos Lula: Kamel é um dos ideólogos da direita derrotada. Por isso mesmo, era chamado na Globo de “Ratzinger”.

Em 2010, Ali Kamel virou alvo de críticas fortes (mas nem por isso injustas) na internet. Deveria estar preparado pra isso. Dirige o jornalismo de uma emissora acostumada a usar seu poder para influir em eleições. Passadas as eleições de 2010, Kamel muniu-se de uma espécie de “furor processório”. Iniciou ações judiciais contra esse escrevinhador, e também contra Azenha (VioMundo), Marco Aurélio (Doladodelá), CloacaNews, Nassif, PH Amorim… Todas praticamente simultâneas. 

Estava claro que Kamel pretendia mandar um recado: “utilizarei minhas armas para o contra-ataque; não farei o debate público, de conteúdo, partirei para a revanche judicial”.

Advogados costumam dizer que em casos assim “o processo já é a pena”. Ou seja: o processante tem apoio da maior emissora do país, conta com advogados bem pagos e uma estrutura gigantesca. O processado (ou os processados) são jornalistas e blogueiros “sujos”, sem eira nem beira. O objetivo é sufocar-nos (financeiramente) com os processos.

Está enganado o senhor Ali Kamel. Aqui desse lado há gente que não se intimida tão facilmente.
Não tenho contra Kamel nada pessoal. Conversei com ele sempre de forma civilizada quando trabalhei na Globo. Troquei com ele alguns emails cordiais – como costumo fazer com todos colegas ou chefes. Kamel utilizou um desses e-mails pessoais na ação judicial, como se quisesse afirmar: “ele gostava de mim quando estava na Globo, deixou de gostar quando saiu da Globo.”

Ora, a questão não é pessoal. Tinha por Kamel respeito, até que comprovei de perto algumas atitudes estranhas (vetos a matérias), culminando com a atuação dele na cobertura do caso dos “aloprados” na eleição de 2006. Na época, eu trabalhava na Globo. Saí da emissora por causa disso. E passei a não mais respeitar Ali Kamel  profissionalmente. O discurso que ele fazia na Redação antes de 2006 (“todos podem ser ouvidos, há espaço para crítica”) era falso. Quem criticou ou dissentiu foi colocado na “geladeira” e “expurgado”. Isso está claro. Azenha, Marco Aurelio Mello, Carlos Dornelles e Franklin Martins estão aí para mostrar…

De resto, a utilização de e-mails (estritamente pessoais) numa ação não é ilegal. Mas mostra o grau apurado de ética de quem os utiliza como ferramenta da luta política e judicial.

No meu caso, a acusação é de ter “espalhado” pela internet que ele seria um “ator pornográfico”. Quem lê os textos que escrevi neste blog sobre a infeliz homonímia (um ator pornô nos anos 80, aparentemente, usava o mesmo nome que ele – Ali Kamel) logo percebe: em nenhum momento disse que Ali Kamel (o jornalista) seria o Ali Kamel (ator pornográfico).Não afirmei que eram a mesma pessoa nem neguei que o fossem. Não sabia, e isso pouco importava. 

Apenas usei a coincidência como mote para a crítica, em textos claramente opinativos: pornográfico, sim, é o jornalismo que Ali Kamel pratica tantas vezes à frente da Globo. Foi essa a afirmação que fiz em seguidos textos. Muitas vezes, de forma bem-humorada.

Na apelação ao Tribunal, mostramos como seria importante a juíza de primeira instância ter consultado especialistas em Comunicação  (indicamos ao menos dois) para entender a diferença entre opinião e informação. E para entender a centralidade do uso do humor na crítica política.

Mostramos em nossa defesa, ainda, como o impoluto comentarista (e ex-cineasta) Arnaldo Jabor utilizou-se de mote parecido no título de um livro que fez publicar: “Pornopolítica”. Se há uma “pornopolítica”, por que não posso falar em “jornalismo pornográfico”?

Só a Globo e seus comentaristas podem recorrer a metáforas? Parece que sim. Especialmente no Rio de Janeiro. No Rio, a Globo joga em casa.

Vamos recorrer aos tribunais de Brasília. Não que eu tenha grandes esperanças de ver magistrados na capital federal a enfrentar o diretor de Jornalismo da Globo. Mas vou utilizar as armas que tenho.
Mais que isso: se Kamel pensava em calar ou intimidar seus críticos, vai se dar mal. Esse processo vai ajudar a mobilizar aqueles que lutam contra os monopólios de mídia no Brasil. 

Vai ajudar a escancarar a hipocrisia daqueles que na ANJ e na SIP pedem “ampla liberdade de crítica”, daqueles que usam Institutos Milleniuns para exigir “que não se criem travas ao humor como ferramenta de crítica”, mas que fazem tudo ao contrario quando são  eles os objetos da crítica e do humor.

Kamel pode até ganhar no Rio. Pode ganhar no STJ, STF, CNJ, SIP, ANJ, sei lá onde mais.  Mas perderá na história. Aliás, já perdeu. Na testa dele está o carimbo (justo ou injusto? o público pode julgar…) de “manipulador de eleições”. Manipulador frustrado, diga-se. Porque segue a perder. No Brasil, na Venezuela, na Argentina…

A Justiça quer que eu pague 20 mil, 30 mil ou 50 mil pro Ali Kamel? Acho absurda a condenação. Mas se for obrigado, eu pago até com certo gosto. Levo lá no Jardim Botânico o cheque pra ele. Ou entrego no apartamento onde ele vive, de frente pro mar na zona sul – palco, vez ou outra, de brigas com os vizinhos que também acabam na Justiça.

Essa condenação, que ainda lutarei para reverter, lembra-me a belíssima letra de Paulo Vanzolini – com a qual abri esse texto…

Tudo bem, Kamel, se você e a  Justiça fizerem questão, eu pago! Só que seguirei a fazer - aqui – o contraponto ao jornalismo que você dirige.

Tudo bem, Kamel, se você e a Justiça fizerem questão, esgotados todos os recursos, eu pago! 

Eu pago. Vê-lo derrotado frente à história: não tem preço.